Seremos superados pelas Inteligências Artificiais?
Estava num grupo de estudos dia desses, discutindo a evolução das máquinas em torno das expressões e sensações próprias dos humanos, e se um dia elas chegariam a perfeita emulação do homem, com inteligência e autonomia.
Foi quando um dos alunos citou um filme, lançado em 2014, chamado Ela (Her) estrelado por Joaquin Phoenix e Scarlett Johansson. Resolvi assisti-lo para ampliar meus horizontes, e fiquei maravilhada com a mensagem silenciosa por trás do roteiro.
“O passado é só uma história que contamos a nós mesmos todos os dias”
O roteiro de Spike Jonze nos apresenta Theodore, um homem sensível, recém separado, que trabalha escrevendo cartas de amor para terceiros. Alguns clientes ele já conhecia há anos, e já tinha escrito várias correspondências.
Naquele mundo de reconhecimento por voz em 100% das interações digitais, cartas e mais cartas eram escritas e impressas em caligrafias personalizadas…
O solitário Theodore é então apresentado à uma “entidade intuitiva que ouve, entende e conhece você. Não era só um sistema operacional – afirmava a propaganda. Era “uma consciência”.
Enfim, ele tinha uma companhia por opção feminina, que o ouvia, entendia e conhecia como só uma entidade consciente poderia. No entanto, uma entidade incorpórea, sem os aspectos sensoriais e linguísticos próprios do ser humano.
Alguns estudos dizem que as nossas memórias são construídas por pequenas histórias verídicas que contamos e repetimos mentalmente. De modo que essa estrutura poderia gerar memórias para uma inteligência artificial. É o que Samantha, o nome da companheira virtual de Theodore fazia para evoluir, assim como todos os sistemas operacionais de sua espécie.
“Se apaixonar é um espécie de insanidade socialmente aceita”
Theodore aos poucos vai ganhando mais intimidade com sua nova “amiga” virtual, ao ponto de vencer o bloqueio que o impedia de assinar o divórcio e não se envergonhar de admitir diante da própria ex-esposa que estava namorando um sistema operacional.
Parece um ideal de todas as mentalidades frágeis, uma relação em que a outra pessoa esteja sempre a postos para nos ouvir, nos entender, e na pior das hipóteses se não estivermos a fim de conversa, basta desconectá-la, virar para o lado e dormir.
Entretanto o filme, torna Ela tão próxima de uma realidade humana, que a personagem ganha as nuances psíquicas de uma mulher, que sente ciúmes, saudades, se ressente de não ter um corpo físico que satisfaça as necessidades do homem, entre tantas outras características.
O casal leva a imaginação tão longe que ambos chegam a fazer sexo virtual… Não, isso não está distante da nossa realidade hoje, como já não estava há oito anos no lançamento do filme.
“A vida é curta, e todos merecemos um pouco de felicidade”
Theodore não tinha expectativas ou planos de vida. Sua solidão e carência afetiva eram palpáveis, sua própria ex-esposa reclamava da relação de dependência emocional, que lhe mantinha sob remédios controlados para conseguir lidar com o casamento.
Samantha, o sistema operacional, por sua vez, durante todo o enredo vai nos apresentando a dualidade dos seus mecanismos, que sugerem os mesmos conflitos psíquicos humanos, como a dúvida entre realidade e sonho, ou entre razão e emoção, imagens criadas e imagens reais.
Sobretudo a imaterialidade de Samantha tira do contexto um fator importantíssimo que garantiu a sobrevivência da raça humana: a linguagem não verbal das expressões, da temperatura da pele, do movimento dos passos, das trajetórias oculares. Por outro lado, evidencia de forma espetacular o quanto a tonalidade e expressão da voz, o ritmo e a narrativa, bem como a respiração diz muita coisa além das palavras ditas.
Todos esse conjunto forma a melhor comunicação que nós seres humanos podemos ter para garantir relações mais harmoniosas e acima de tudo humanas. As máquinas podem, e estão se aproximando artificialmente cada vez mais de expressões verbais e aparência humana, porém reproduzir o maravilhoso mundo da mente humana está fadado ao fracasso, pois por mais bem desenvolvido que seja, sempre terá uma mão humana do outro lado programando-a.
Trabalhando com automações e vendo a precariedade de algumas iniciativas, e o banco de dados a que são submetidas certas inteligências artificiais embrionárias, é cedo para esperar uma revolução de máquinas no Brasil, contudo não é cedo para voltarmos a nos conectar com outros seres humanos.
Não é uma questão de rejeitar a tecnologia. Ela está aí para nos ajudar. Mas existe algo na natureza que alimenta nossa alma desde o útero em que fomos gestados: o calor humano, o aconchego de outras peles, outros corpos, do brilho nos olhos, a saliva, as lágrimas, o cheiro, o toque com impressões digitais (não virtuais) que não tem preço!
O excesso de contato com aplicativos cortam caminhos cerebrais para obter um número elevado de informações, mas não formam caminhos neurais que levam uma pessoa a chegar lá por si sós. Não podemos deixar uma geração à mercê de um sinal de internet para poderem sobreviver! A comodidade não pode ignorar aspectos fundamentais do ser humano.
Não vou dar spoiler, mas o final do filme foi uma boa sacada do roteirista, que alerta para o risco de qualquer tipo de dependência emocional, mesmo que seja de uma máquina. Aplicativos são muito bons, mas quanto mais nos afastamos da nossa essência tripartite (corpo, alma e espírito) mais sem sentido e vazia será nossa vida.

dezembro 23, 2025 at 3:59 pm
I don’t think the title of your article matches the content lol. Just kidding, mainly because I had some doubts after reading the article. https://www.binance.info/es/register?ref=RQUR4BEO
janeiro 30, 2022 at 6:10 pm
Esses assuntos de inteligência artificial rendeu lá no grupo!😁
Parabéns pelo excelente artigo, gostei bastante do seu posicionamento e reflexão. Não podemos nos distanciar do ser humano, podemos ter um milhão de amigos virtuais mas não substituí um presencial.
janeiro 30, 2022 at 1:37 pm
Adorei a resenha. Nos permite durante a leitura e acredito que continuaremos depois dela fazer reflexões de nossas posturas diante deste mundo artificial que às vezes pensamos muitas vezes que é real. 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻