Fé e saúde mental só não podem andar juntas se você não quiser desagradar alguém. 

Querer agradar a todos é o caminho mais fácil para o abismo, mesmo que não seja o mais rápido. 

Seja na vida pessoal ou profissional, sempre haverá quem não se agrade de nós, ou do que nós fazemos.

Em certos níveis de amadurecimento da nossa personalidade, desagradar aos outros pode ser muito ruim. E em certa medida, não é uma expectativa saudável querer agradar todo mundo.

Todo mundo é muita gente! 

É preciso tomar um partido, uma lado, um posicionamento. Alguns chamam isso de levantar bandeiras; em certo sentido, pode ser: trazer sobre si um sinal que distingue pessoas em favor de um objetivo comum. 

Por um tempo, evitei falar mais abertamente sobre meu trabalho como analista corporal, não porque tivesse alguma dúvida sobre a profissão ou sobre a técnica diante da minha fé cristã, mas por saber que justamente esse nicho de saúde mental, por algum motivo, alimentava um conflito com a fé.

Ciência e fé parecem inimigas, incompatíveis entre si.

Mas, na verdade, não são. Alguns cientistas podem ser inimigos da fé, mas não por serem cientistas, mas porque todos nós nascemos inimigos de Deus, até que Ele mesmo alcance nossos corações.  

A questão era, se eu falasse de uma coisa só, sem falar da outra, não estaria sendo autêntica, não estaria transmitindo a minha mensagem como deveria. Por outro lado, me posicionar poderia causar um certo estranhamento, aguçar as birras frequentes de que o “terapeuta não mistura a técnica com religião”. 

Se é verdade que nenhum terapeuta deve misturar a técnica com religião, é indiscutível que a religião ou crença do terapeuta está intrínseco em tudo que ele faz. 

Nossos princípios e valores guiam nossa visão, nossos motivos para fazer ou deixar de fazer algo, nossas opiniões, as escolhas dos objetos em nosso ambiente, as coisas com as quais nos entretemos, o que influencia nossa forma de pensar e enxergar o mundo.

Experimente pedir um conselho genuíno a uma pessoa diferente com religiões respectivamente diferentes, e o resultado será o mais diverso possível. Não é sobre estar certo ou errado, embora eu não defenda a ideia de que “não existe certo nem errado”, como dizem por aí. 

Entretanto, a questão é justamente nos expor, ou não, a situações em que reconhecidamente as pessoas têm princípios e valores diferentes dos nossos. E pensando nisso, depois de muito refletir – e sim, orei a esse respeito também, conclui que a saúde mental carece de posicionamento do terapeuta, não pela validade ou não da técnica, mas pela confiança que o posicionamento transmite. 

Diga-me com quem andas…

A técnica perde força, por mais excelente que possa ser, quando a postura do profissional não gera catarse, não gera conexão, não transmite confiança. E não é que pessoas de religiões diferentes não sejam confiáveis, mas numa perspectiva tão íntima e pessoal como são em geral os processos terapêuticos, é um caso a se pensar. Palavra de quem já passou por alguns processos diferentes!

Para não dizer que não confiei em ninguém, confiei em uma pessoa, mas definitivamente nós não falávamos a mesma língua. E percebo que fui bastante imprudente, embora até hoje, essa pessoa seja muito querida. A responsabilidade de guardar o meu coração será sempre minha. 

E é sobre isso: guardar o coração!

Tudo influencia, estando nós conscientes ou não, seja por má intenção ou não dos outros. Para quem crê que a Bíblia é a palavra de Deus, não nos falta alertas sobre a necessidade de tomarmos cuidado com o mundo, e se “o mundo” for muito amplo para você, comece tomando cuidado com suas relações, seus ambientes, e as situações em que você se expõe.

Não temos total controle sobre as circunstâncias, mas muitas delas podemos amenizar, se não formos imprudentes. E aqui chego ao segundo tema, complementar ao assunto: qual a participação da fé no processo terapêutico, ou como distinguir o que foi efeito da obra de Deus e o que foi processo terapêutico? 

Deus quis assim?

Você aprendeu a escrever porque desenvolveu sua cognição (conhecimento) com auxílio de professores, ou por um milagre ou obra de Deus na sua vida?

Seu organismo digeriu o que você comeu no almoço porque seu corpo funciona de forma autônoma nesse processo, ou Deus fica controlando o intestino de cada um, soltando ou prendendo?

Do mesmo modo, seus resultados com o processo terapêutico, com ajuda de um profissional, dependem do quanto você consegue manejar sua psique, sua mente, que embora tenha o mesmo significado de “alma”, não equivale a uma experiência espiritual.

Sua vida espiritual, seus princípios e valores de fé não interferem no processo terapêutico, ele age em você, nas suas escolhas, na sua capacidade de estar atento ao que acontece, nas decisões que podem ou não te afastar do que você acredita. 

Quando passamos a entender como nossa mente funciona, sobre o que é a dependência emocional e nossas tendências a ela, tiramos muita coisa da conta de Deus, e vamos humildemente pagar o nosso boleto, porque a dívida é nossa! Muita coisa em que buscamos a desculpa de que “Deus quis assim” como consolo, nós sofremos por pura responsabilidade nossa, por consequência de nossas escolhas.

Uma das grandes obras de Deus na sua vida, e na vida de todos os seres humanos é a capacidade de renovar a mente, reorganizar toda a bagunça que assimilamos numa fase do nosso desenvolvimento em que não tínhamos capacidade para isso, mas que já desenvolvemos há algum tempo, só não fomos ensinados a usar. 

Seus valores cristãos agem no seu coração, no seu espírito, que vai conduzir a natureza com a qual você gera suas escolhas e consequentemente sua mente vai usar os meios que tem, da forma que está para realizá-los, e é aí que entra sua saúde mental, para que você consiga fazer o que precisa ser feito, com o mínimo de dignidade!